O desafio do retrato

Publicado por

André Rodrigues


Escritor, poeta e artista plástico Carlos Dala Stella – Foto: André Rodrigues

Dia desses, naquelas efêmeras leituras de internet, deparo-me com um pequeno texto publicado por um fotógrafo que admiro e sigo nas redes. Um fotojornalistas francês dessa nova boa safra e tal.

O pensamento, um texto bem legal sobre a nobre (cerimoniosa) arte do retrato. Aqui vale o empréstimo intertextual de forma resumida. Até porque falta aquela pegada e expressões idiomáticas do francês. Fico na dívida do link do texto. Nessa enxurrada de coisas, não consigo achar na timeline dele. De lambuja fico com a liberdade dos adendos).

No sentido geral ele diz que o retrato é basicamente um encontro furtivo. “Não há muita segurança. Todos nervosos, inseguros e cheio de emoções – inseguranças pra ser real”, diz Corentin Fohlen. Além disso, vale dizer que há um quê de promiscuidade. Lindo isso, não. 

Numa sessão, você tem alguns poucos minutos. Breves. Raramente dispoões de tempo para flertar, conversar, pensar em algo. “Como atingir as pessoas? Como mostrar o que elas são – ou até mesmo o que gostariam de ser naquela breve encenação?”.

Rogério Pereira, diretor da Biblioteca Pública do Paraná – Foto: André Rodrigues

Dizem que no retrato rola uma troca. O retrato isso e aquilo. Que “todo retrato é um autorretrato”, disse um renomado fotógrafo – quem teria realmente já apontado isso foi, na verdade, Dorothea Lange (1930).

Não obstante, o retrato é pura batalha. Luta cruel, face a face, corpo a corpo. De um lado seu oponente, tentando se impôr. Do outro, você, performático, aparelhado com suas armas fotográficas na esperança da submissão.

Num terceiro plano, tal como um estrategista atrapalhado, sobra o assessor. Ora com dicas práticas ora com dicas estúpidas e cliches mal fadados antes de serem digitalizados.

O campo de batalha é a locação. Arrasta algo daqui, empurra dali. Ilumina. Rebate. Conversa o necessário, também o desnecessário. Fala besteira, faz piada tosca. O retratado não ri. Você acha que está sendo derrotado. Vai perder e sair sem aquilo que seria a quintessência da coisa em si. Ou melhor, do seu personagem.

Numa outra analôgia, agora minha. Tal como um dandi de salão, você infere que não se trata de uma luta, e sim de uma dança. Tem ritmo e cadência. De repente, seja você bom dançarino ou não, vale se arriscar na pista. Aliás, depois uns bons goles, você já se sentira o paladino do sapatiado – digo, das câmeras.

Manu Buffara, Chef – Foto: André Rodrigues

Nessa luta, ou dança – conforme queira – ninguém sai imune. Entretanto, niguém perde. Saio de lá com sua imagem. Aquela que eu criei, aquela que você projetou (encenou) e aquela que pensarão de você. Uma performance consentida, num grande teatro fotográfico.

Ademais, por fim, não podemos deixar de dizer que o portrait é democrático. Aceita qualquer pessoa sem distinções. Pobre ou rico. Uma pessoa notória ou um simples cidadão escolhido na multidão. A pessoa sempre será a arte em si. Ele não apenas participa, mas torna-se. Ou como disse Diane Arbus: “o tema da foto sempre é mais importatne do que a foto”. O retrato é uma fotografia de todos.

Acompanhe o trabalho e os artigos do André Rodrigues clicando AQUI

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s