Encontrando Marc Riboud

Publicado por

Henry Milleo


A primeira vez que eu encontrei Marc Riboud foi nas páginas de uma antiga revista na casa de minha avó. Naquela época eu estava sempre a procura de algo para ler, e mexer nos armários com publicações antigas era uma verdadeira caça ao tesouro.

Minha avó não jogava nada fora e, justamente por isso, haviam lá em um conjunto de prateleiras azuis de madeira atrás da porta do seu quarto um sem número de livros, revistas e jornais misturados com retalhos, pacotes de presente e outra quantidade incalculável dessas coisas que um dia chegam a ter alguma utilidade. Cada qual cuidadosamente acondicionado dentro de pacotes de arroz vazios (que também nunca eram jogados fora) e devidamente empilhados por ordem de tamanho e classificados de acordo com a espécie a qual pertenciam. As revistas ficavam na segunda prateleira de baixo para cima, ao alcance das mãos de um moleque curioso.

A matéria que trazia as fotos do Riboud era sobre a Ásia. Sei disso porque apesar de não lembrar o nome da revista, eu guardei na memória o que vi e o que li sobre uma terra que ia muito além do que minha imaginação infantil podia imaginar. Eu devia ter uns 7 anos e para mim a fronteira do mundo era a fronteira de minha cidade natal, um pequeno município no interior do Paraná, com pouco mais de 14 mil habitantes no início da década de 1980.

A foto de abertura mostrava uma cena de rua na China, fotografada de dentro de uma loja com um porta de madeira cortada em quadrados envidraçados, o que criava molduras para o que acontecia lá fora. Essa talvez seja a foto mais reproduzida do trabalho de Riboud na Ásia. Mas a foto que me chamou a atenção estava no pé de uma página, não maior do que três colunas, e mostrava uma série de rostos – a maioria de crianças e jovens – olhando fixamente para a câmera. Era uma multidão de gente encarando o fotógrafo e, por consequência, quem observava a imagem. Rostos com expressão de curiosidade, medo, desconhecimento. Passei muito tempo imaginando o que cada um daqueles personagens estava pensando naquele momento.

Anos depois eu descobriria que aquela era a primeira vez que moradores de um vilarejo no interior do Vietnã viam um ocidental. E Riboud, com sua estatura mediana, cabelos encaracolados (deviam ser menos brancos na época, mas ainda assim claros) e um grande par de óculos com lentes grossas e armação negra que deixavam ainda menor os seus pequenos olhos, era realmente um personagem a ser admirado.

Gosto de romantizar que esse foi o momento em que a fotografia me pegou, apesar de saber que na verdade foram uma série de fatores que me levaram a eleger a fotografia como trabalho e paixão. Mas até onde posso me recordar, a mistura de maravilhamento e assombro dos rostos naquela imagem são a mais remota lembrança que tenho de uma fotografia.

Encontrei com Riboud muitas outras vezes depois. Em livros, revistas, e com o advento da internet ainda o encontrei em documentários e entrevistas. Era o mesmo senhor de óculos de aros negros e cabelo esvoaçante, com um rosto simpático e um sorriso singelo.

E é essa singeleza perceptível na pessoa que eu vejo no seu trabalho. Uma fotografia que ao mesmo tempo pode ser simples, mas forte. A fotografia do extraordinário.

A última vez que eu encontrei Riboud foi no final de 2011. Eu havia recém mudado para Curitiba e  uma exposição no Museu Oscar Niemeyer trazia o trabalho do fotógrafo da Magnum. Fui oito vezes apreciar a coleção de fotos de um dos poucos fotógrafos para quem eu guardo o rótulo de gênio.

Estava lá a sua famosa foto da mulher que com uma flor nas mãos se coloca em frente a um grupo de policiais portando baionetas (imagem captada em 1967, em Washington e copiada a exaustão por fotógrafos que cobrem manifestações ao redor do globo), o pintor da Torre Eiffel, os banhistas no Malecón em Havana e, claro, a série chinesa.

A foto que me fez conhecer Riboud também estava lá. Com uma moldura preta em um fundo branco que bem fazia jus aos óculos de aro grosso do fotógrafo. E continuava sendo uma imagem linda que ainda assim, anos depois da primeira vez que o encontrei, mantinha aquele poder de me encantar.

As minhas últimas duas últimas idas ao museu nessa exposição foram para ver exclusivamente essa foto. Passei algumas boas horas mirando firmemente cada um daqueles rostos e tentando imaginar novamente o que cada uma daquelas pessoas estava pensando naquele momento. Mas também tentando entender o que o fotógrafo pensou no momento do disparo.

Minha opinião? Riboud pensou nessas coisas que só os gênios pensam antes de criar algo extraordinário. Algo simples que a gente comum só não havia percebido.

Marc Riboud faleceu em 30 de agosto de 2016.


Nossos textos só usam imagens autorizadas, por isso não estranhe se não houver fotografias ilustrando a matéria. De qualquer forma, dentro do texto há links para páginas oficiais onde você pode conferir o trabalho dos fotógrafos aqui retratados.

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