A busca pela curtida

Publicado por

André Rodrigues


Como se tornar um “criativo inautêntico”? Bem, eu acho que me tornei um. Pelo menos estou me esforçando bastante. Basta (re) produzir fotografia, textos, e tudo mais, pensando somente nas redes sociais. Cheguei a essa conclusão ao me deparar com o termo da fotógrafa italiana Sara Lando, que no artigo Why I Deleted All of My Social Media and 60,000 Followers, publicado no site Peta Pixel, traz um reflexão interessante sobre esse momento, em especial no sentido da fotografia profissional e todo contexto artístico. No texto em questão, a fotógrafa explica porque implodiu seus perfis de redes sociais e partiu para produzir e cultivar contatos “mais verdadeiros”.

Essa implosão na conta tem um quê de ruptura no papel e até mesmo o valor das redes sociais em nosso trabalho – aquilo que para acreditarmos. Embora, tenha esse aspecto, a questão cresceu e abre debate para um outro contexto da coisa toda. Será que realmente estamos produzindo algo ou só mimetizando? Repetindo fórmulas para agraciar o ego, um pseudo-público? Ou ainda, invertendo os valores ao produzir demasiadamente para ter curtidas e afagos nas redes sociais e deixando de se preocuar com o contéudo, a forma e o conceito do trabalho fotógrafico.

A questão é pertinente num momento em que tudo são “pictures”. Visto que a cultura da imagem sobrecarrega e se esvai de um dia para o outro. A vida privada ganha status do que é possível chamar de “picture-public”. Aliás, mais ou menos isso que o Slajov Zizek chama atenção. O fenômeno torna-se evidente atualmente quando o contexto de público ( tipo estar na rua, na praça etc), para se tipificar como algo “público” tem a necessidade da presença de uma câmera. E as pessoas que estão em casa, no quarto, no restrito, divulgam-se em imagens tornando aquilo apenas divulgação.

Nessa imensa indústria da produção de imagens, num ambiente (virtual) impregando, fotógrafos querem ser vistos, desejam ter o trabalho apreciado – e que viralise, para usar o termo atual. Basicamente natural e não há nada de errado nisso. Todavia, essa estratégia degringola quando o hábito se torna refém do imediatismo. Ato febril e até mesmo frenético. O “outro” fez, eu também tenho de fazer. Eis o mundo de produção fotográfica pós-instagram.

Dessa forma esse negócio de postar fotos diariamente (meio que a esmo e involuntáriamente) proporciona o que? Melhor, vai levar onde? Tanto esforço para ganhar o quê? Aliás, será que não está criando uma barreira ou até mesmo distanciando de, digamos, um trabalho mais elaborado. Acredito que seja mais ou menos essa ponderação que afligiu a Sara Lando.

A estética da repetição e o comportamento mimético

A ansiedade para postar algo ou publicar é algo inerente a este período. Assim como também é condicionante o comportamento de verificar a cada 20 minutos para ver quantos cliques conseguiu, quantos comentários fizeram. O trabalho em si deixou de ser prioridade para focar no resultado abstrato da evidência na rede social.

Eis uma mudança que ocorre em nível de algoritmos, em estado de indução. No nosso caso, fotografa-se com a preocupção do que os outros vão achar. Qual o target, o nicho, as hashtagss, a visibilidade, o alcance, etc. A ideia é agradar “um robô”, um sistema que no fundo é uma empresa, uma indústria da mesmice. Seu processo criativo, artístico, contestador, sua “arte”, e até sua honestidade vai se esvaziando no processo – ou pelo menos se restringe

Caso alguém diga que a onda agora é vermelho, abunda tudo em vermelho. Se a onda são tons pastel, tudo ganha a coloração. Estações de ano, comportamentos, o clichê explorado ao máximo. Assim por diante, numa imensa avalanche de fazer o que os outros fazem para agradar sabe lá quem.

O projeto intitulado @insta_repeat, uma conta no instagram que reune imagens esteticamente repetitivas ao máximo da fórumula clichê, traz uma reflexão acerca dessa tendência e repetição na produção de fotos na mídia em geral.

Intitulei isso de “crítica do mimetismo visual”. Um aspecto da indústria que suga a originalidade na criação. E no caso do “Insta Repeat” a coisa tocou em cheio o ego de alguns fotógrafos que tiveram fotos divulgadas no projeto. Houve quem não curtiu, mas há quem entendeu bem a questão e considerou o fato um fenômeno observável.

O meio tornou-se o fim

A busca pelo clique em função de uma prematura divulgação numa rede social leva (ou rebaixa) todo um corpo de trabalho ao simples objeto de uma rede social. Para quem trabalha com qualquer tipo de projeto, sabe que isso compromete o todo.

Essa busca pelo afagar das “curtidas” reduz ou pelo menos compromete a criação e a experimentação criativa. Horas e horas gastas em alimentar uma rede, um grupo de seguidores, um sistema, um o jogo da mídia instântanea. Tem uma frase do Marc Riboud que resume bem tudo isso. “Você tira fotos muito melhor quando pensa. Quando é assim ‘click, click, click…’, não fica bom”.

Esse é o campo da mesmice, do ego, das imagens açucaradas para afagar, para ter seguidores, gostos. Basicamente no espectro do clichezão e da falta de uma proposta fotográfica coerente.

Sejamos sinceros, há uma avalanche do mesmo, sem graça que beira o ruim – e para ser sincero não me excluo. Aliás, esse papo nasce de uma observação bem pessoal. Na realidade tudo se esvai na alimentação desse gigantesco monstro da era das imagens, da pós-fotografia. Parece haver certa inversão. Isto é, o produto final está sendo relegado enquanto o sistema vai ditando o que tem de ser divulgado (postado). Ora faz-se apenas por fazer ora faz-se apenas para divulgar. O meio tornou-se o fim.

Porém, qual seria a realidade sem as redes sociais? Ou pelo menos sem aquelas voltadas para as imagens. Onde suas fotos seriam disponibilizadas?

Provavelmente seria a hora de redobrar e ampliar a processo todo do trabalho. E mesmo as foto ocasionais – single shot – teriam maior atenção. Toda essa imaterialidade, o extremismo do fazer a esmo, teria de ser pensado para a “materialização” – isto é, transformar em algo palpável tal como uma exposição, um livro etc). E não digo isso no sentido físico somente, mas a criação de algo mais pensado mesmo focando a virtualidade. E o melhor: retomaria uma postura mais pessoal e autoral.

O momento é de extrema opressão imagética. Profusão demasiada de imagens. Os olhos cansam, confundem-se diante de tantas figuras, numa espécie de blur, de embaralhamento e por fim um ofuscamento. Nada chama a atenção verdadeiramente. Não há o tocante pungente ou a ambiguidade, tão prazerosos na arte. Temos apenas o shot, o picture, a insta-foto para um afagar de egos. Nosso ou da indústria.

Um comentário

  1. Caramba… Começaram o site sem massagem rsrsrs

    Eu ( no dia que deixo este recado) coloquei um texto no storie no Instagram falanago algo que tem muito a ver com isso que foi sobre os feeds. Eu pensei em alguns dias deixar meu feed como o feed de alguns perfis relacionado a fotografia, mas pensei por dias e pensei… se eu fizer igual, como vou diferenciar meu trabalho? Eu quero ter um feed “bonitinho” ou um feed autentico? Veja bem, não estou falando que o feed pode ser montado, criado de qualquer jeito, acho legal a ideia de você seguir um padrão que atenda a sua linguagem, me refiro ao padrão de “perfis iguais” no Instagram. Fui olhar esse perfil citado no artigo e embora tenham imagens interessantes, mostra também o quanto de “copia” existe e me pego pensando também o quanto meu inicio na fotografia tem recebido de influencia disso tudo e o quanto eu deixo isso me influenciar.

    Bom vou ficando por aqui antes que vire um comentário artigo rsrsrs acho que vou pensar sobre isso e dizer algo também no meu projeto. Um grade abraço a toda a equipe do site e mais uma vez Parabéns pelo projeto!!

    Grande abraço.

    Tiago Augusto

    Curtido por 1 pessoa

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